Pular para o conteúdo

Maluquices…

dezembro 15, 2011

Quando viu seu casamento em ruínas, Luanda inventou um colapso nervoso. Caiu nua ao lado da cama, e ficou ali babando até o marido retornar do trabalho. Ela era atriz, e soube representar muito bem o papel de mulher desestruturada. Enganou até o psiquiatra, que receitou um sortimento invejável de antidepressivos.

Toda manhã, ela se levantava junto com o marido para dar inicio ao espetáculo. Pegava um copo d’água, separava os comprimidos e seguia para o banheiro com aquela carinha de velório. Com a porta encostada, atirava os remédios no vaso e puxava a descarga. Pouco a pouco, Luanda encenava uma leve melhora, para logo em seguida ter uma inesperada recaída.
Assim passaram os anos. Luanda, que sempre dava um jeito de ser vista como vítima das circunstâncias, acabou segurando o marido graças ao pior dos sentimentos: a pena. Fazia-se de louca, perdida, estava sempre desorientada. Acabou se afastando do teatro e ficou em casa, cuidando do controle remoto e do frigobar.

Tudo estava seguindo na maior tranquilidade, até que Luanda se deixou flagrar em pleno coito com o pobre entregador de pizza. Era mais uma de suas artimanhas para corroborar com a falsa loucura, mas o tiro saiu pela culatra. Cansado de tantos surtos, o marido entrou com o divórcio, e a colocou para fora de casa.
Luanda ficou tão revoltada que subiu até a cobertura, para respirar um ar fresco. Olhou lá do alto, pensou um pouco nas alternativas que lhe restavam, e acabou pensando uma mensagem suicida no facebook. Por uma escada lateral, alcançou o parapeito e ficou estática, sentindo o vento lamber suas pernas.

Luanda estava pronta para se jogar do décimo segundo andar quando ouviu o telefone tocar. Era seu marido. Ficou tão afoita para atender que acabou se desequilibrando, e nos poucos segundos que levou até se esborrachar no asfalto, só conseguiu pensar na repercussão que sua atualização de status causara na rede social…

Imaginária?

dezembro 2, 2011

Roberta era uma mulher extremamente tarada. Onde quer que estivesse, só precisava fechar os olhos para pensar em putaria. Em seus devaneios, passavam homens de todas as cores, tamanhos e sotaques, assim como rolas e pintos sem dono. Aquela morena de seios pequenos tinha uma facilidade incrível para gozar em lugares públicos, onde os cheiros mais diversos serviam de combustível para seus múltiplos orgasmos.

Certo dia, acordou com um fogo no rabo tão intenso, que nem banho de mar apagaria sua volúpia. Saiu de casa vestida para fechar negócio, sem calcinha, livre para voar. Com a mão apoiada na cintura, desceu o morro rebolando mais que passista da Portela. E como era de se esperar, chamava atenção de todos: homens, mulheres, marmanjos, crianças e até cachorros. Todo mundo babava por Roberta, até o pipoqueiro de moral duvidosa.

Mas engana-se quem acha que ela fazia isso para arrumar uma transa. Apesar de sua fama, Roberta também era absurdamente medrosa. Tinha tanto pavor de encarar a realidade rotunda e pulsante dentro de suas vergonhas, que era praticamente uma virgem. Só tivera algo mais íntimo com o primeiro e único namorado. Mas o infeliz nasceu com a ferramenta de um verdadeiro jegue, e não sabia usa-la:  isso traumatizou a moça.

A partir daí, Roberta, tomou gosto pelo erotismo solitário. Gozava na fila do banco, no metrô, no ônibus lotado e até no açougue. Tudo muito bom, tudo bem prazeroso, até o dia em que se apaixonou por Leozinho, um rapaz moreno, alto e musculoso, que conhecera no Trem do Samba. Papo pra cá, chamego pra lá, ela a jogou contra o muro e fisgou seu coração. Roberta estava literalmente de quatro, num motel de Madureira, deu-se a chocante revelação.
Leozinho fazia jus ao diminutivo, e todo o trabalho transcorreu sem que a morena sequer sentisse cócegas nos baixos fuditórios. Decepção era uma das palavras que estampavam a testa de Roberta, enquanto ela tomava uma ducha para ir embora. Mas apesar da mixaria, o rapaz era bem educado, e demonstrava verdadeiro afeto pela moça. Sem coragem de dispensa-lo, a morena foi levando o namoro adiante, até não ter mais volta.

Casaram-se, tiveram filhos, e anos depois, começaram a frequentar as missas com mais frequência. Aos poucos, Roberta foi se acostumando com aquela realidade,  acabou castrada. Já nem se lembrava mais do sabor de um orgasmo, e suas fantasias resumiram-se a colecionar cupons de desconto para o supermercado. A vida seguiu, e a morena embarangou. Já não causava mais impressão por onde passava, e até a depilação fora abolida.

Certa noite, quando voltava sozinha da igreja, ela avistou um mendigo se masturbando sob a marquise da padaria. Apesar de sujo e fedido, aquele homem tinha algo que a encantava. Algo que a remeteu àquelas tardes úmidas da juventude. Sem refletir, Roberta despiu-se e montou no bastardo. Foi o orgasmo mais sincero e intenso de sua vida. Recomposta, voltou para casa com a alma leve. Não sentiu um pingo de culpa, pois finalmente encontrara o equilíbrio de que precisava para seguir adiante.

Borrada

novembro 16, 2011

Dionísia saiu da casa com uma produção digna de aplausos. Pegou o metrô, foi ouvindo seu iPod e então veio o temporal. No que correu da estação de Botafogo até o táxi, acabou borrando toda a maquiagem. Não tinha tempo e nem dinheiro para voltar até Vila Isabel, então resolveu desencanar. Ao chegar na festa, parecendo o Alice Cooper em fim de carreira, ela disse que aquele era o último grito em Paris. Todas adoraram, e depois de alguns drinks, estavam tão borradas quanto a própria.
Dionísia nunca foi tão grata pelas amigas medíocres e sem personalidade, que jamais checariam tal informação.

Fechando a conta

novembro 10, 2011

Encontrar com o ex-namorado na fritação foi uma ótima forma de Rubiellen se mostrar esclarecida e de bem com a vida. Arreganhando aquele sorriso fake que só daria para sua amiga mais invejosa, ela sacodiu o cabelo e galopou em sua direção ao bar, onde pediu um whisky duplo que bebeu numa só golada.

Rubiellen queria que Eulersom entendesse rapidinho que já não estava mais na dele, e que nem adiantaria tentar uma ridícula cena de xaveco. Mas não teve jeito. O perturbado insistiu em reatar e ela disse, em alto e bom que pegou gonorréia num ménage-à-trois enquanto ainda estava com ele, mas não quis assumir porque ficou com vergonha.

Foi tiro-e-queda, ele nunca mais a procurou novamente. E Rubiellen nem ficou mal falada, porque a memória residual de quem estava naquela balada era mais volátil que crédito em celular pré-pago.

Completinha

novembro 5, 2011

A noite foi maravilhosa, os beijos foram mais que apimentados e as pernas quase não se fechavam de tanto que Nádia foi deflorada. Nada poderia ser mais romântico, se o desgraçado não viesse contar que era casado e pai de três filhas pequenas [sendo uma delas vesga]. Indiganada, ela se vestiu, ajeitou os cabelos, retocou o baton e cobrou couvert artístico, com os dez por cento pelo bom atendimento. Se é para ser confundida com puta, melhor fazer o serviço completo.

Conjurando Carolinas

outubro 31, 2011

Assim que Laureline chegou na festinha de Haloween da empresa, notou que havia alguém Conjurando Carolinas ( essa era a forma polida de dizer que tinha convidado com cecê ). Para não levar a culpa por um crime que não cometeu, ela começou a dançar com os braços para o alto, chegando o sovaco bem perto de todos, só para provar que estava cheirosa. Foi assim com Thriller, Bad Romance e Vogue. Dançou tanto que acabou ensopada de suor. E como não há desodorante com garantia ilimitada, a desinibida dançarina da Vila Valqueire acabou levando o troféu da fedorenta misteriosa. Sem saber, logicamente.

Paulo, a progressiva e a chuva

outubro 27, 2011

Chovia canivetes e Paulo não podia sair de casa, por causa da escova progressiva que fizera para o fim de semana. De que valia, então, tanto esforço para ficar mais belo se ninguém teria a chance de elogiar? Não, ele daria um jeito de fritar na balada, mesmo que tivesse de colocar uma sacola de supermercado enfiada na cabeça. Fez um belo enema, tomou banho de perfume, se vestiu para a batalha.

E lá foi ele, com o plástico amarrado na cabeça, para proteger as melenas. Pegou um táxi e pediu para seguir em direção a Copacabana. Morava no Méier, e isso custaria uma fortuna. A vontade de fumar era absurda, mas o orgulho de ser belo era maior ainda. Pegou o maço e atirou no meio da rua. Sentiu algo no baixo ventre e apavorou-se com uma possível regurgitação do enema. O coitado ainda não era mestra na arte, sempre deixava algum rastro…

Sem se deixar abater pelo incidente, saltou do táxi já sem o plástico na cabeça, porque ninguém precisava saber dos sacrifícios que se faz para estar sempre apresentável nas fotos. Marchou tal qual modelo internacional e mostrou a identidade para o door da boite, seu nome sempre estava na lista VIP. Mas não naquela noite.

Com um sorriso sem graça, Paulo abriu a carteira e constatou que havia gasto todo o seu dinheiro com o táxi, e que ali só havia um punhado de moedas que lhe valia o retorno para casa num busão sem ar condicionado. Mas ele precisava entrar na boite. Ainda mais com aquele cabelo lindo e brilhoso, que ofuscaria todas as outras amigas de balada.

Com todo o charme do mundo, Paulo chegou no pé do ouvido do segurança e lhe ofereceu uma boquete, que foi prontamente recusada. Ofereceu uma noite com muita sodomia, nada feito. Ofereceu um beijo na boca, filhos loiros e pudim de caramelo, mas o segurança deu três tapinhas em seu ombro, mostrando o ponto de ônibus.

Paulo voltou para casa, com os cabelos molhados e o orgulho ferido. Maldita chuva que insistiu em ficar sobre a cidade por semanas a fio. Mas ele jurou para si mesmo que nunca mais passaria por tal vergonha novamente. Ao chegar em casa, pegou a máquina que usava para aparar os pentelhos e ficou careca. Passou uma semana sem fazer a barba, só para desenhar um cavanhaque. O problema agora era conseguir segurar a pinta, mudar a voz de gato no cio e não fazer a coreografia perfeita do novo single da Lady Gaga.

Enquanto isso, em Madureira…

outubro 20, 2011

Leonídea andava pelas ruas de Madureira, debaixo daquele sol de 42°C, protegida pela sombrinha florida que comprara na subida do viaduto por cinco dinheiros. Estava à procura das miudezas multicoloridas com as quais produzia suas bijus, quando avistou na porta das Lojas Americanas uma figura de seu passado.

- Everaldo, é você?

- Leonídia?!

- Não acredito!! Há quantos séculos que… Você tá bem?

- Estou ótimo! Nossa, você não mudou nada!

- Ah, para com isso… Não nos vemos desde… sei lá!

- Desde a gravação do último capítulo de Fera Radical. Novembro de 1988.

- Não acredito! Isso tudo?! Como você lembra?

- Bom, você sabe… foi meu último trabalho como figurante.

- Ai, Everaldo. Não lembro mesmo! Porque nos distanciamos?

- Bom, você estava com o Thales Pan Chacon, e eu…

- Gente, o Thales! Ele era um fofo.

- Morreu, né?

- Não sei. Perdi contato com ele…

- Morreu. Faz um bom tempo, Leonídea.

- Que pena… Mas diga lá, casou?

- Na verdade, não. Passei esse tempo todo pulando de galho em galho.

- Seu galinha! Aposto que deixou vários corações quebrados…

- Leonídea, eu te amava. Quer dizer, eu ainda te amo! Cara, que isso…

- Everaldo, como assim?

-É isso! Te amo! Quero você!

- Mas… Já passou tanto tempo? Como pode?

- Não sei. Só quero ter a chance de te conhecer novamente. Pode ser?

- Everaldo, eu sou casada. Tenho três filhos e uma casa pra pagar.

- Larga tudo. Vem comigo.

-Não dá… Você não se declarou naquela época, e eu…

- Vem comigo? Vamos sumir e recuperar o tempo perdido?

- Ai, Everaldo…

- Quer que eu abra a camisa? Lembro muito bem de você fitando meu peito peludo.

- Foda-se tudo! Quer saber, Everaldo? Vamos ali pro Omaha Hotel…

- Agora mesmo. Vou te fazer sentir como a Malu Mader!

- Me faz gozar como uma cachorra, que já tá de bom tamanho!

Leonídea largou a família na semana seguinte, sem dar explicações, e foi morar em Realengo com Everaldo. Agora com os cabelos curtos e tingidos de castanho, ela tem uma enorme tatuagem fechando as costas e  recruta jovens para fazer figuração em novelas e seriados. Enquanto isso, ele fica em casa, ouvindo a trilha internacional da novela que os  juntou novamente, vinte e três anos depois…

Bebês em Sachês

outubro 10, 2011

Quando Rosane passou pela banca de jornal, quase teve um troço. Finalmente encontrara o disputadíssimo primeiro fascículo de “Bebês em sachês”. A coitada já havia rodado por Madureira, Quintino e Cascadura, mas precisou caminhar até Bento Ribeiro para, finalmente, garantir a perninha direita do neném.

Para quem não podia engravidar, aquela novidade caiu do céu como uma bênção. O preço era mais salgado que bacalhau, mas o sonho de ter seu próprio filho, por si só, valia qualquer sacrifício. Já na primeira edição, ela aprendeu a identificar a diferença entre o choro de fome e o choro de birra.

Semana após semana, ela comprou religiosamente todos os fascículos. Cada nova parte do bebê deveria ser reservada, até que todos os sachês estivessem disponíveis. Por conta de uma apendicite perfurada, Rosane acabou perdendo o sachê que continha o bracinho esquerdo, que acabou esgotando em todo o Rio de Janeiro.

Foram dezenas de ligações para a editora, súplicas em fóruns do Facebook, campanhas em correntes de email e até macumba. Rosane ficou sem o bracinho, mas não desistiu do bebê: comprou até a última semana, e resolveu arriscar. “Afinal, tanta gente consegue viver com bem menos”, filosofou no Twitter.

Daí, o grande dia havia chegado. A mistura de todo aquele pozinho seria imersa numa bacia de alumínio, com água morna e três gotas de sangue da futura mamãe… e mais quatro do papai? Como aquele era seu projeto solo, Rosane imaginou que aquilo também não faria falta e foi adiante.

Depois de seguir (quase) todas as etapas descritas no último fascículo, Rosane cobriu a bacia com uma toalha quente e colocou um cd da Alcione pra tocar. Estava ansiosa para ver a carinha de seu futuro rebento, mas deveria aguardar três horas até o “parto”. Para aguentar isso tudo, tinha um pack de cerveja Polar mofando no refrigerador.

Rosane acabou pegando no sono, e só acordou no dia seguinte. Afoita, correu até a bacia, para finalmente ter nos braços o seu tão sonhado bebê. Com lágrimas nos olhos, ela começou a levantar cuidadosamente a toalha. Suas mãos tremiam de nervoso, mas lá estava ela… Imperfeita, porém amada.

Aquela bolinha de carne, disforme e inerte, acompanhou Rosane até seus últimos dias. Obediente como uma pedra, nunca fizera pirraça. Uma pena que a mãe, acometida pela demência, a tenha confundido com uma peça de alcatra. Foi um domingo delicioso ao lado da churrasqueira, com suas amigas de jogatina.

Rock in Fossa: o festival segundo Tacilene

outubro 2, 2011

Eu comprei os ingressos para todos os dias do Rock in Rio na primeira pré-venda, quando ninguém sabia sequer quem iria tocar no festival.  Acompanhei  a escalação de cada banda com o furor uterino de uma pervertida, e chorei  ao saber que os Red Hot Chili Peppers fechariam a noite de sábado. Enfrentei o sol de mil desertos para retirar meus convites, e até pedi demissão, para ter como acompanhar tudo sem me preocupar em justificar as faltas. Um semana antes, já comecei a deixar tudo organizado: mochilas, roupas e listas de compras para cada dia. Seria meu primeiro festival de rock, se eu não tivesse essa mania horrorosa de tomar conta da vida de meus ex-namorados pelo Facebook.  Acabei descobrindo o Robinho também estaria lá todos os dias, e fiquei em casa só para ter como acompanhar suas postagens. Não é que eu estava certa? Ele conheceu uma loirinha de olhos azuis e já me superou. Um absurdo, gente! Um absurdo!

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 1.316 other followers