Pular para o conteúdo

Borrada

novembro 16, 2011

Dionísia saiu da casa com uma produção digna de aplausos. Pegou o metrô, foi ouvindo seu iPod e então veio o temporal. No que correu da estação de Botafogo até o táxi, acabou borrando toda a maquiagem. Não tinha tempo e nem dinheiro para voltar até Vila Isabel, então resolveu desencanar. Ao chegar na festa, parecendo o Alice Cooper em fim de carreira, ela disse que aquele era o último grito em Paris. Todas adoraram, e depois de alguns drinks, estavam tão borradas quanto a própria.
Dionísia nunca foi tão grata pelas amigas medíocres e sem personalidade, que jamais checariam tal informação.

Fechando a conta

novembro 10, 2011

Encontrar com o ex-namorado na fritação foi uma ótima forma de Rubiellen se mostrar esclarecida e de bem com a vida. Arreganhando aquele sorriso fake que só daria para sua amiga mais invejosa, ela sacodiu o cabelo e galopou em sua direção ao bar, onde pediu um whisky duplo que bebeu numa só golada.

Rubiellen queria que Eulersom entendesse rapidinho que já não estava mais na dele, e que nem adiantaria tentar uma ridícula cena de xaveco. Mas não teve jeito. O perturbado insistiu em reatar e ela disse, em alto e bom que pegou gonorréia num ménage-à-trois enquanto ainda estava com ele, mas não quis assumir porque ficou com vergonha.

Foi tiro-e-queda, ele nunca mais a procurou novamente. E Rubiellen nem ficou mal falada, porque a memória residual de quem estava naquela balada era mais volátil que crédito em celular pré-pago.

Completinha

novembro 5, 2011

A noite foi maravilhosa, os beijos foram mais que apimentados e as pernas quase não se fechavam de tanto que Nádia foi deflorada. Nada poderia ser mais romântico, se o desgraçado não viesse contar que era casado e pai de três filhas pequenas [sendo uma delas vesga]. Indiganada, ela se vestiu, ajeitou os cabelos, retocou o baton e cobrou couvert artístico, com os dez por cento pelo bom atendimento. Se é para ser confundida com puta, melhor fazer o serviço completo.

Conjurando Carolinas

outubro 31, 2011

Assim que Laureline chegou na festinha de Haloween da empresa, notou que havia alguém Conjurando Carolinas ( essa era a forma polida de dizer que tinha convidado com cecê ). Para não levar a culpa por um crime que não cometeu, ela começou a dançar com os braços para o alto, chegando o sovaco bem perto de todos, só para provar que estava cheirosa. Foi assim com Thriller, Bad Romance e Vogue. Dançou tanto que acabou ensopada de suor. E como não há desodorante com garantia ilimitada, a desinibida dançarina da Vila Valqueire acabou levando o troféu da fedorenta misteriosa. Sem saber, logicamente.

Paulo, a progressiva e a chuva

outubro 27, 2011

Chovia canivetes e Paulo não podia sair de casa, por causa da escova progressiva que fizera para o fim de semana. De que valia, então, tanto esforço para ficar mais belo se ninguém teria a chance de elogiar? Não, ele daria um jeito de fritar na balada, mesmo que tivesse de colocar uma sacola de supermercado enfiada na cabeça. Fez um belo enema, tomou banho de perfume, se vestiu para a batalha.

E lá foi ele, com o plástico amarrado na cabeça, para proteger as melenas. Pegou um táxi e pediu para seguir em direção a Copacabana. Morava no Méier, e isso custaria uma fortuna. A vontade de fumar era absurda, mas o orgulho de ser belo era maior ainda. Pegou o maço e atirou no meio da rua. Sentiu algo no baixo ventre e apavorou-se com uma possível regurgitação do enema. O coitado ainda não era mestra na arte, sempre deixava algum rastro…

Sem se deixar abater pelo incidente, saltou do táxi já sem o plástico na cabeça, porque ninguém precisava saber dos sacrifícios que se faz para estar sempre apresentável nas fotos. Marchou tal qual modelo internacional e mostrou a identidade para o door da boite, seu nome sempre estava na lista VIP. Mas não naquela noite.

Com um sorriso sem graça, Paulo abriu a carteira e constatou que havia gasto todo o seu dinheiro com o táxi, e que ali só havia um punhado de moedas que lhe valia o retorno para casa num busão sem ar condicionado. Mas ele precisava entrar na boite. Ainda mais com aquele cabelo lindo e brilhoso, que ofuscaria todas as outras amigas de balada.

Com todo o charme do mundo, Paulo chegou no pé do ouvido do segurança e lhe ofereceu uma boquete, que foi prontamente recusada. Ofereceu uma noite com muita sodomia, nada feito. Ofereceu um beijo na boca, filhos loiros e pudim de caramelo, mas o segurança deu três tapinhas em seu ombro, mostrando o ponto de ônibus.

Paulo voltou para casa, com os cabelos molhados e o orgulho ferido. Maldita chuva que insistiu em ficar sobre a cidade por semanas a fio. Mas ele jurou para si mesmo que nunca mais passaria por tal vergonha novamente. Ao chegar em casa, pegou a máquina que usava para aparar os pentelhos e ficou careca. Passou uma semana sem fazer a barba, só para desenhar um cavanhaque. O problema agora era conseguir segurar a pinta, mudar a voz de gato no cio e não fazer a coreografia perfeita do novo single da Lady Gaga.

Enquanto isso, em Madureira…

outubro 20, 2011

Leonídea andava pelas ruas de Madureira, debaixo daquele sol de 42°C, protegida pela sombrinha florida que comprara na subida do viaduto por cinco dinheiros. Estava à procura das miudezas multicoloridas com as quais produzia suas bijus, quando avistou na porta das Lojas Americanas uma figura de seu passado.

- Everaldo, é você?

- Leonídia?!

- Não acredito!! Há quantos séculos que… Você tá bem?

- Estou ótimo! Nossa, você não mudou nada!

- Ah, para com isso… Não nos vemos desde… sei lá!

- Desde a gravação do último capítulo de Fera Radical. Novembro de 1988.

- Não acredito! Isso tudo?! Como você lembra?

- Bom, você sabe… foi meu último trabalho como figurante.

- Ai, Everaldo. Não lembro mesmo! Porque nos distanciamos?

- Bom, você estava com o Thales Pan Chacon, e eu…

- Gente, o Thales! Ele era um fofo.

- Morreu, né?

- Não sei. Perdi contato com ele…

- Morreu. Faz um bom tempo, Leonídea.

- Que pena… Mas diga lá, casou?

- Na verdade, não. Passei esse tempo todo pulando de galho em galho.

- Seu galinha! Aposto que deixou vários corações quebrados…

- Leonídea, eu te amava. Quer dizer, eu ainda te amo! Cara, que isso…

- Everaldo, como assim?

-É isso! Te amo! Quero você!

- Mas… Já passou tanto tempo? Como pode?

- Não sei. Só quero ter a chance de te conhecer novamente. Pode ser?

- Everaldo, eu sou casada. Tenho três filhos e uma casa pra pagar.

- Larga tudo. Vem comigo.

-Não dá… Você não se declarou naquela época, e eu…

- Vem comigo? Vamos sumir e recuperar o tempo perdido?

- Ai, Everaldo…

- Quer que eu abra a camisa? Lembro muito bem de você fitando meu peito peludo.

- Foda-se tudo! Quer saber, Everaldo? Vamos ali pro Omaha Hotel…

- Agora mesmo. Vou te fazer sentir como a Malu Mader!

- Me faz gozar como uma cachorra, que já tá de bom tamanho!

Leonídea largou a família na semana seguinte, sem dar explicações, e foi morar em Realengo com Everaldo. Agora com os cabelos curtos e tingidos de castanho, ela tem uma enorme tatuagem fechando as costas e  recruta jovens para fazer figuração em novelas e seriados. Enquanto isso, ele fica em casa, ouvindo a trilha internacional da novela que os  juntou novamente, vinte e três anos depois…

Bebês em Sachês

outubro 10, 2011

Quando Rosane passou pela banca de jornal, quase teve um troço. Finalmente encontrara o disputadíssimo primeiro fascículo de “Bebês em sachês”. A coitada já havia rodado por Madureira, Quintino e Cascadura, mas precisou caminhar até Bento Ribeiro para, finalmente, garantir a perninha direita do neném.

Para quem não podia engravidar, aquela novidade caiu do céu como uma bênção. O preço era mais salgado que bacalhau, mas o sonho de ter seu próprio filho, por si só, valia qualquer sacrifício. Já na primeira edição, ela aprendeu a identificar a diferença entre o choro de fome e o choro de birra.

Semana após semana, ela comprou religiosamente todos os fascículos. Cada nova parte do bebê deveria ser reservada, até que todos os sachês estivessem disponíveis. Por conta de uma apendicite perfurada, Rosane acabou perdendo o sachê que continha o bracinho esquerdo, que acabou esgotando em todo o Rio de Janeiro.

Foram dezenas de ligações para a editora, súplicas em fóruns do Facebook, campanhas em correntes de email e até macumba. Rosane ficou sem o bracinho, mas não desistiu do bebê: comprou até a última semana, e resolveu arriscar. “Afinal, tanta gente consegue viver com bem menos”, filosofou no Twitter.

Daí, o grande dia havia chegado. A mistura de todo aquele pozinho seria imersa numa bacia de alumínio, com água morna e três gotas de sangue da futura mamãe… e mais quatro do papai? Como aquele era seu projeto solo, Rosane imaginou que aquilo também não faria falta e foi adiante.

Depois de seguir (quase) todas as etapas descritas no último fascículo, Rosane cobriu a bacia com uma toalha quente e colocou um cd da Alcione pra tocar. Estava ansiosa para ver a carinha de seu futuro rebento, mas deveria aguardar três horas até o “parto”. Para aguentar isso tudo, tinha um pack de cerveja Polar mofando no refrigerador.

Rosane acabou pegando no sono, e só acordou no dia seguinte. Afoita, correu até a bacia, para finalmente ter nos braços o seu tão sonhado bebê. Com lágrimas nos olhos, ela começou a levantar cuidadosamente a toalha. Suas mãos tremiam de nervoso, mas lá estava ela… Imperfeita, porém amada.

Aquela bolinha de carne, disforme e inerte, acompanhou Rosane até seus últimos dias. Obediente como uma pedra, nunca fizera pirraça. Uma pena que a mãe, acometida pela demência, a tenha confundido com uma peça de alcatra. Foi um domingo delicioso ao lado da churrasqueira, com suas amigas de jogatina.

Rock in Fossa: o festival segundo Tacilene

outubro 2, 2011

Eu comprei os ingressos para todos os dias do Rock in Rio na primeira pré-venda, quando ninguém sabia sequer quem iria tocar no festival.  Acompanhei  a escalação de cada banda com o furor uterino de uma pervertida, e chorei  ao saber que os Red Hot Chili Peppers fechariam a noite de sábado. Enfrentei o sol de mil desertos para retirar meus convites, e até pedi demissão, para ter como acompanhar tudo sem me preocupar em justificar as faltas. Um semana antes, já comecei a deixar tudo organizado: mochilas, roupas e listas de compras para cada dia. Seria meu primeiro festival de rock, se eu não tivesse essa mania horrorosa de tomar conta da vida de meus ex-namorados pelo Facebook.  Acabei descobrindo o Robinho também estaria lá todos os dias, e fiquei em casa só para ter como acompanhar suas postagens. Não é que eu estava certa? Ele conheceu uma loirinha de olhos azuis e já me superou. Um absurdo, gente! Um absurdo!

Groselha e Jubarte ( ou um amor que não tem nome )

setembro 24, 2011

Groselha e Jubarte tinham uma relação puramente sexual. Sem amor, sem paixão, sem carinho e sem amizade. Só se encontravam para trepar, e aquele acordo fora sacramentado sobre o lençol ressecado e poido da cama do motel Alphaville, próximo da estação de Ramos.

Num desses encontros, depois de ter esgarçado todas as suas mucosas reprodutivas, Groselha sentiu aquela vontade louca de ser possuída pelo orifício conjugal do olho cego. O problema é que eles já estavam sem lubrificante, e o cuspe, por si só, não seria o bastante.

Daí o varão foi até a mesinha da copa procurar algo que pudesse ajudar naquele momento de tensão. Encontrou um sache de manteiga, e depois de pensar por dois milésimos de segundo, concluiu que mal não poderia fazer.

Com o vai-e-vem intenso e a fricção constante, foi subindo um cheiro de bife acebolado, que o deixou enlouquecido. Comeu-a com a fome de mil nômades, e caiu desmaiado. Acordou com o toque do telefone, avisando sobre o final do período.

Qual não foi sua surpresa de Jubarte, ao descobrir que, realmente, havia comido a amante. Ao pé da letra mesmo, como um canibal. Um frio correu pela sua espinha, e ele soltou um arroto azedo. Saiu do quarto de fininho e deu de ombros. Pelo menos não teria que gastar dinheiro com almoço.

Por cima do muro

setembro 20, 2011

As folhas caídas da mangueira forrando o quintal. O ninho de bem-te-vis nas travessas do telheiro. O cheiro de goiaba vermelha madura. E então o barulho da sandália rasteira sobre o chão de terra batida. As pedrinhas estalavam com o atrito da sola, enquanto Elisabete balançava o corpo para estender as roupas no varal de arame. Na vitrola, um disco de Marisa Monte, o único que tinha, dava o tom daquela tarde alaranjada em Irajá.

Zélia havia posto água para ferver, enquanto aguardava Everaldo voltar com o pão. Entre os refrões de “Não é fácil”, brotou do bule o cheiro de café. A dona de casa ficou debruçada sobre o muro, pitando um cigarro, para ouvir melhor a música. Eram vizinhas, e compartilhavam sensações. Elisabete abriu-lhe um sorriso e, depois de colocar a última calcinha para secar, permitiu-se um dedo de prosa.

Falaram mal da vizinhança inteira, lamentaram a alta no preço do tomate, trocaram receitas, fofocaram mais um pouco e depois pediram perdão a Deus pelas indiscrições. Elisabete pediu licença para rezar o terço, pois já passava das seis, e Zélia foi abrir o portão para o marido. Uma serviu arroz, com feijão, bife e batatas fritas no jantar. A outra preparou um Miojo de galinha caipira.

Naquela noite, enquanto tomava banho, Zélia ficou pensando na amizade que acabara de nascer, e fez um roteiro mental do que usaria como pretexto, na tarde do dia seguinte, para puxar assunto com Elisabete. Esta, já deitada, pensava numa canção envolvente para chamar a atenção da vizinha, por quem se apaixonara no momento em que viu aquele belo par de mamilos por baixo da blusinha estampada de viscose.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 1.329 other followers