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Sonsyanne

março 15, 2012

Sonsyanne descrevendo-se nas redes sociais:  “Sou uma pessoa easygoing, down to earth e de gostos sofisticados. Aprecio good vibrations, indie rock e um bom vinho. Não suporto gente low-profile, sem identidade. Meu hype?  Trendsetting!  Me convide para sua festa e ela será um scandal! Sou VIP em qualquer lugar, Darling!”

Sonsyanne, na vida real, divide um conjugado com três amigas na Prado Júnior, onde dorme numa beliche de ferro. Ela tem espinhas no rosto, cabelo oleoso e usa o wi-fi aberto de um vizinho descuidado para fazer checkin em lugares bacanas, sem nunca ter posto o pé em qualquer um deles. Em algum momento da vida, ela não precisará mais passar a semana inteira economizando no almoço para pagar a entrada na balada. Os drinks, por enquanto, ela segue filando de quem dá confiança.

Uma obra inacabada

março 9, 2012

Herculano passou dez anos escrevendo contos eróticos para a revista “Big Man Internacional”, que nunca foram publicados. Colecionador alucinado, não perdia uma edição que fosse, na vã esperança de ver seu nome estampado nas páginas ilustradas que a recheavam. Comprava, inclusive, os fascículos especiais, onde só se exibiam jovens senhoras,  devidamente depiladas.

Apesar da óbvia repulsa que seu material parecia causar nos redatores da revista, ele não desistia. Incontáveis noites em claro, e centenas de cadernos pautados foram gastos, mas ele enfim conseguiu… a equipe entrou em contato, solicitando a confirmação de seus dados. Herculano só faltou soltar fogos no terraço e estourar uma Sidra Cereser.

É de se estranhar que o conto selecionado tenha sido um dos menos inspirados, dentre toda sua obra pornográfica. Havia naqueles garranchos uma certa tristeza, com pinceladas de melancolia – ao passo que também havia muita perversão no modo em que o coito era descrito. Carnal, suado, cuspido. Herculano era um gênio no que diz respeito à putaria, cujo talento fora repetidamente triturado.

Sim, Herculano só enviava seus manuscritos. Não houve cópia, nem arquivo. Quando o exemplar de março chegou às bancas, o corpo teso daquele homem tarado foi enterrado no cemitério de Irajá. Sofreu uma parada cardíaca, coisa fulminante. Jamais viu a ilustração grotesca que escolheram para estampar seu derradeiro conto.

Fato é que a publicação foi um estouro! Um sucesso de vendas, justamente por conta daquela história escrita com caneta Bic preta. Herculano foi aclamado pelos leitores, e imortalizado por toda a crítica literária. E se pudessem ler tudo o que ele escrevera nos anos anteriores, enquanto tinha força para bater uma punheta para cada modelo da revista? Ah, se pudessem ter lido…

Uma salada carnavalesca

fevereiro 25, 2012
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Jandira pegou herpes de Valdemar, que se separou de Hercília, que é irmã de Adamastor. Este foi preso por mijar na rua, depois de ser encorajado por Selma, que é prima de Haroldo. Este é sobrinho de Joaquina, que sofreu um derrame após a empolgação na Bandinha de Ipanema. Quem a socorreu foi José Paulo, que é amante de André Rubens, cuja mãe se chama Dagmar. Esta última já foi casada três vezes, mas só amou de verdade o safado do Sérgio. Este, que trabalha como taxista para manter a família, já teve um affair com a mesma Jandira, que começou este conto com uma infecção moderada  e desde então nunca  foi vista mais gorda…

Toda a saga de Edileusa

fevereiro 10, 2012

Edileusa nasceu em Realengo, e lá se tornou mulher. Só que chegou um momento em que ela cansou de ser suburbana. Uma das metas para 2012 foi mudar de vida: dras-ti-ca-men-te. Juntou seus paninhos de bunda, alugou uma cama num quartinho de espelunca na Zona Sul e deu o pontapé inicial para a grande virada.

Trabalhava como caixa numa loja de departamentos, o que lhe rendia um salário mixuruca.  Almoçava uma marmita requentada de macarrão com salsichas, todo santo dia. Nas horas vagas, Edileusa passava roupas para fora, e assim foi juntando uma graninha. Pouco a pouco, a crioula foi se soltando e fez novas amizades.

Bate perna pra cá, bate perna pra lá. Um jeitinho no cabelo, manicure e a mágica acontece. Três meses de muito sufoco, e acabou trocando de emprego: agora venderia doces na bomboniere da boate, onde o salário era três vezes maior. Indicação de Charli, uma travesti de 57 anos que jurava ter seios naturais como os de Rogéria: “Tudo hormônio, bebê. Pode apertar!”.

Edileusa aprendeu a fumar, e foi apresentada aos restaurantes japoneses. Já não ouvia mais pagode, e aposentou definitivamente o henê. Comprou um vestidinho na Osklen, sentiu um enorme orgulho de si e bateu o martelo: “É essa a vida mesmo que eu quero!”

Com um visual totalmente repaginado, beirando o hipster e arranhando no que se chama de descolado, Edileusa trocou até de nome: agora queria ser chamada de Naomi. Aprendeu inglês com a mesma rapidez que esqueceu de Realengo. Rendeu-se aos encantos de um moreno jambo e desabafou: “Tô namorando o milionário árabe, Charli!”

A festa de despedida foi exclusiva para a turminha bacana, e a família sequer foi informada do enlace.  Sem olhar para trás, partiu rumo a Dubai, onde seria dona de uma pequena ilha, com shopping particular e cinco praias paradisíacas. Edileusa, finalmente, estava vivendo tudo  que tanto sonhara.

Não houve nenhuma reviravolta, tampouco desastre natural em sua história. Edileusa não teve filhos mutantes, nem explodiu num cruzamento. Ela continuou curtindo e ostentando toda aquela riqueza, porque nem todo mundo que deseja deixar de lado suas origens precisa, necessariamente, ser poupado de um final feliz.

Um email vazado

janeiro 20, 2012

( Conto escrito em maio de 2005, nunca antes publicado )

De: daniela.c@aol.com
Para: jpdiniz@veloxmail.com.br

Assunto: Agora, fudeu!

Mensagem:
Estou de saco cheio, João Paulo. Aquela palhaçada de casamento foi longe demais, sabe? Se eu queria mesmo era ficar com você, não deveria ter me sujeitado a ir para a cama com aquele palerma horroroso. Só ele mesmo para acreditar que eu sentia algum tesão. Toda vez que ele pedia para eu chupar aquela piquinha com fimose, eu sentia nojo de mim mesma. Na verdade, eu me sentia como uma prostituta. Mas sabe como é, tudo tem seu preço. Meu cachê aumentou em cerca de quinhentos por cento desde que começamos a namorar, eu não podia perder a chance de tornar esse índice ainda maior. Era tudo ou nada, eu tinha que me sujeitar a esse sacrifício.

No começo até que estava fácil, era só tomar uma droga qualquer e trepar com ele, que no dia seguinte eu nem me lembrava do que tínhamos feito. E como aquele corno treina mais do que fica em casa, era tranqüilo para mim. O foda é que, num descuido meu, o cara meteu sem camisinha e gozou dentro. Fiquei grávida, e sem saber o que pensar. Concordo que ter um filho de jogador de futebol e se divorciar logo depois é como ganhar na loteria, só que o prêmio viria em parcelas mensais, e ainda teria a pestinha me atrapalhando a vida. Não pensei duas vezes e liguei para minha amiga, aquela da Globo, e perguntei o que ela tinha tomado para exterminar com o verminho. Foi tiro e queda, no dia seguinte eu mijei sangue e estava tudo resolvido.

O foda é que o corno descobriu tudo, inclusive o nosso affair, e resolveu me botar para fora de casa. Acredita que ele teve a audácia de insinuar que o bebê era seu? Fiquei caladinha, só esperando ele acabar de dar escândalo para eu começar o meu. Nem falei muito, na verdade. Só destruí tudo que vi pela frente, e deixei aquele filho-da-puta sem nada. Já que eu não teria direito a carregar nada, me senti no direito de não deixar nada para aquele mongolóide.

Aí, estou eu aqui, linda e magra, assistindo minha novela sentada no sofá, quando vejo o meu nome sendo repetido a cada cinco segundos no Tv Fama. Os demônios já sabem de todos os detalhes da separação, das cláusulas do contrato pré-nupcial e do nosso namorico, em Veneza. Mas deixa estar, já chamei Ivete e Maria da Graça para virem aqui fazer um trabalho bem pesado praquela Luiza Mel. O Clô disse que pode dar uma ajudinha também, se for preciso.

Bom, eu cansei de digitar, meu querido. Tenho que pensar numa boa forma de despistar os repórteres para nos encontrarmos novamente. Estou precisando sentir um homem de verdade, pulsando dentro de mim. Só não quero saber de viajar de helicóptero, por que nesse assunto você é pé frio. Fique com Deus, um beijo.
Da sua eterna Dani.

Diário de uma modelo gulosa

janeiro 10, 2012

“Querido diário…

Eu pequei. Nada tão grave quanto matar alguém, nem tão simples quanto me masturbar pensando naquele novo padre, moreno e barbudo, que veio aqui para nossa paróquia na semana passada. Cometi o pecado da gula, e devorei uma torta de chocolate meio amargo, sozinha. Engoli inteira, como se aquilo fosse água. Eu nem estava com fome, nem estava ansiosa. Foi maldição do capeta, mesmo.
Acho que hoje vou me ajoelhar no milho e tentar me redimir de tanta podridão. Nem quando eu dava o cu para meu tio Everaldo eu me sentia tão suja. Quer dizer, exceto nos dias em que eu acabava cagando no pau dele. Hoje eu sei que isso é um incidente inevitável, mas na época achava que era culpa minha. Aliás, não há ninguém que de o cu mais gostoso do que eu, posso garantir!
Mas já estou fugindo do assunto, como de costume. Sou uma vaca, mesmo. Deveria nascer de novo como verme de estrume, ou então galinha preta. Eu ficaria bem na encruzilhada, com a tigela de barro cheia de farofa.
Talvez eu deva mesmo sofrer. Paguei uma verdadeira fortuna em cirurgias plásticas, personal-trainners, nutricionistas… Tudo isso para que? Acabei comendo uma maldita torta, inteirinha, sem pestanejar. Acho melhor sumir desse mundo, viver sozinha numa ilha deserta, ou então… não sei… Acho que deveria entrar para o circo. Será que eles ainda estão precisando de elefantas, hoje em dia?
Bom, por hoje é só. Preciso ir até a agência, pegar o endereço de onde vou fazer as fotos para a nova campanha da Ellus. Meu agente disse que eu sou a protagonista do ensaio, mas depois de tudo que fiz… sei lá, sabe…”

E o vencedor é…

janeiro 5, 2012

( Este é um conto de 2006, nunca antes publicado )

Michel se sentia diferente dos outros meninos, não conseguia interagir com ninguém em sua classe, e quase toda noite chorava silenciosamente até conseguir pegar no sono. Seus desejos mais íntimos não eram como os das pessoas consideradas normais. Nunca havia tocado noutro rapaz, muito menos beijado algum homem, mas tinha certeza de que sua orientação sexual não era como a de seus colegas. Para ele, não havia nenhuma dúvida, seria uma questão de tempo até que tudo viesse à tona.

Durante quase três meses, Michel acompanhou o programa Big Brother Brasil sem perder nenhum episódio. Descobriu em Jean um ídolo, por assumir em rede nacional sua sexualidade, de forma tão valente e destemida. A cada intervalo comercial, ouvia calado às críticas de sua mãe sobre o oportunismo barato do participante. Desde então, torcia fervorosamente pelo professor baiano e acreditava numa possível vitória, que traria muito respeito e também desmistificaria a homossexualidade.

A cada paredão, Michel fazia uma nova promessa, para que Jean permanecesse no programa tempo suficiente para mudar a cabeça das pessoas e transformasse preconceitos em respeito, amor e companheirismo. Sabia que seria uma luta difícil para um exército de um homem só, mas nunca impossível. Apesar de ter somente quatorze anos, já tinha uma visão muito abrangente do mundo e de seus valores deturpados.

Quando Jean foi indicado para a eliminação ao lado de Pink, Michel prometeu a si mesmo que se o professor não saísse naquela noite e posteriormente se tornasse o vencedor da competição, ele iria se assumir gay perante toda a família. Não importava se iriam aceitar ou não sua declaração, ele só queria que seu ídolo mostrasse a todos que dar o cu não torna ninguém um monstro.

E depois de uma torturante noite de terça-feira, Michel vibrou explosivamente com a vitória de Jean. Gritou por toda a casa, correu pela vizinhança e fez com que todos soubessem de sua alegria naquele momento tão aguardado. Com a camiseta encharcada de suor, e um semblante de alívio, o garoto voltou para casa feliz da vida, já imaginando as palavras que iriam dar início ao seu comunicado.

Depois de tomar um banho quente, pentear os cabelos e escovar os dentes, Michel desceu as escadas e foi até a sala de estar, onde seus pais conversavam sobre amenidades e comiam as roscas recheadas com chocolate que sobraram no domingo de Páscoa. Com um sorriso no rosto, o menino perguntou se podia interromper a conversa por alguns segundos, enquanto puxava uma cadeira.

Sem ouvir um pio sequer de seus pais, Michel fez um falou sobre suas inclinações sexuais, assim como todos os problemas que havia enfrentado até então, por ter de viver escondendo sua verdadeira natureza. Com lágrimas nos olhos, ele terminou seu monólogo depois de quase duas horas. Deu um beijo no rosto da mãe, e ouro na mão direita do pai. Enxugou o rosto com a manga de seu pijama, pediu licença aos pais e foi para seu quarto.

Na manhã seguinte, o menino foi acordado pela mãe, num horário incomum. Lavou o rosto, escovou os dentes e vestiu uma roupa que estava arrumada em cima da cômoda. Sem nenhuma explicação, seu pai o levou até o carro, e pediu para que entrasse, sem fazer muitas perguntas.

Michel foi internado numa instituição psiquiátrica, onde permaneceu por duas semanas, tomando choque nas têmporas. Por mais que o mundo parecesse aceitar as diferenças exibidas na televisão, alguns conceitos ainda não haviam sido muito bem fundamentados para que ele criasse tantas expectativas positivas acerca de suas diferenças. Atualmente, Michel planeja o assassinato de sua classe, e já tem escrita sua carta de suicídio, que está escondida dentro da fronha de seu travesseiro.

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